|História de um herói

A memória da Revolta dos Búzios volta a ocupar o centro da cena teatral baiana com a nova temporada de 1798 – Lucas Dantas: Um Herói de Búzios, da Cia de Teatro Gente. O espetáculo começou no último dia 13 e terá a última apresentação no próximo dia 27 às 20h, aqui na capital baiana, no Teatro Módulo, na Pituba, reafirmando o teatro como espaço de preservação da memória, reflexão crítica e valorização das lutas negras na história do Brasil. A escolha do mês de agosto tem um significado histórico profundo. Em 12 de agosto de 1798, foram afixados em Salvador os célebres papéis sediciosos que convocavam a população para uma revolução inspirada nos ideais de liberdade, igualdade e justiça. O episódio marcou o início da Revolta dos Búzios — também conhecida como Conjuração Baiana — um dos mais importantes movimentos populares, anticoloniais e abolicionistas do país. Apresentar o espetáculo nesse período representa uma celebração viva da memória negra e do legado de homens e mulheres que ousaram imaginar uma sociedade mais justa.


A montagem revisita esse episódio histórico a partir da trajetória de Lucas Dantas de Amorim Torres, jovem negro, soldado e um dos quatro mártires executados pela Coroa Portuguesa. Frequentemente relegado a papéis secundários nos registros oficiais, Lucas é recolocado no centro da narrativa como sujeito político, intelectual e revolucionário. Em cena, Everton Machado conduz um solo de intensa potência física, vocal e simbólica. História, poesia, música e ritual se entrelaçam em uma dramaturgia que rompe com a historiografia tradicional para construir um espetáculo de forte impacto artístico e político. O palco transforma-se em espaço de escuta, confronto e celebração da memória negra, estabelecendo um diálogo direto entre passado e presente.

Mais do que uma reconstituição histórica, 1798 – Lucas Dantas: Um Herói de Búzios afirma-se como um ato de insurgência cênica ao abordar temas como racismo estrutural, colonialidade, apagamento da memória negra e os permanentes projetos de liberdade gestados à margem do poder. O corpo do ator torna-se arquivo vivo, território de disputa e ferramenta pedagógica, convidando o público a refletir sobre quem escreve a história — e a quem ela serve.

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